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segunda-feira, 22 de abril de 2013

A despedida


A última noite não foi nada fácil para nós dois. 
A última imagem, em 20/04/2013
O incômodo já era grande demais e as patas
dianteiras também perdiam a força. Fiz macarrão com cenoura e espinafre para ele e coloquei um sachê de carne junto. Anúbis, que adora macarrão, comeu aos poucos. Foram três tentativas com intervalos de pelos menos meia hora até ele terminar de comer uma porção pequena, e que até algumas semanas antes,
devoraria em um só bocado. Dos mais de 23kg que ele pesava quando a doença começou, em meados de janeiro, ele já estava com 19,2 kg. Incrível que mesmo tendo emagrecido e com quadro de dor ele continuava lindo, com pelo sedoso e orelhas atentas.

Surgiu também uma secreção nos olhos. Parecia que o corpo dele perdia toda a hidratação e o estômago estava um pouco inchado. A noite de domingo para segunda foi incômoda para ele. Notei que mesmo eu tendo colocado uma almofada sob a cabeça dele para facilitar a respiração, ela era difícil. Acordei duas ou três vezes ouvindo-o ofegante.

Logo cedo, Anúbis tomou bastante água, comeu um pedaço de queijo meio sem vontade e fomos até a clínica veterinária. Lá, ele nem mais os ombros quis levantar. Levantava só o pescoço e demonstrava muito cansaço.  A veterinária disse que clinicamente o quadro dele piorara muito e que agora já não era somente o problema da mobilidade. Que mesmo tomando água suficiente, o corpo já não estava mais aproveitando. O estômago inchado e as fezes como pedra mostravam sinais de os rins estarem em processo de falência e que o pulmão dele já estava começando a sofrer pela falta de mobilidade.

Ela não poderia afirmar quanto tempo ele teria de vida, mas disse que a mobilidade não se reverteria, nem parcialmente e o risco de eu chegar um dia em casa e ele ter morrido sufocado seria cada vez maior. Diante da agonia de morrer sufocado e cheio de dores e a possibilidade de propiciar uma passagem mais tranquila para ele, fiz a segunda opção. A veterinária me garantiu que o processo de eutanásia seria indolor e que o corpo dele seria tratado com respeito. Então, às 9h do dia 22 de abril, eu me despedi dele.  Acho que o mais difícil em tudo isso foi o fato de que a cabecinha dele estava muito boa. Totalmente consciente, atento e reagindo a tudo que acontecia. Isso complica muito na hora da decisão. Pareciam dois cães. Um do pescoço para baixo, quase inerte, e outro do pescoço para cima, esperto como sempre foi. Obrigada por tudo Anúbis, por quase 12 anos de muito carinho e companhia.

domingo, 21 de abril de 2013

Alteração no quadro

Depois de se divertir alguns dias a bordo do seu Fórmula 1, o quadro do Anúbis apresentou piora significativa. Ele já não conseguia mais se sustentar sentado. Assim como quando ele parou de andar, foi de uma hora para outra. Eu o colocava sentado e ele caía. Estava paralisado das axilas para baixo, sem fome e sem vontade de tomar água. Mexia as patinhas dianteiras, mas não levantava.

Foram dois dias assim, praticamente sem se mexer e comendo pouco.  Como ele não melhorava resolvi levá-lo a clinica veterinária, na manhã seguinte. Acho que eu protelei dois dias porque receava receber o diagnóstico final.  Na noite anterior dormi na sala, pois levá-lo para o andar de cima da casa seria muito sacrificado para nós dois.  Deixei-o comer tudo que ele gosta: fiz macarrão com cenoura e brócolis, sachê de carne, queijo branco e dei até um pedaço de bolo de milho caseiro.

Acordei toda torta na manhã seguinte por ter dormido no sofá. Lá fomos nós até a clínica veterinária. Havia duas possibilidades de diagnóstico: a doença ter piorado e comprometido mais áreas da coluna ou ele estar em uma crise de dor.

Coquetel de remédios


Duas semanas com um coquetel de remédios iriam dizer.  No total eram 11 comprimidos por dia, pois dois remédios precisavam de três doses diárias e ele precisava também de protetores gástrico e intestinal para aguentar a dose: corticoide e até um remédio a base de morfina para passar a dor.

Nos primeiros dias ele se animou, comeu bem melhor e tomou bastante água. Eu o colocava em posição de esfinge para poder comer e beber, e assim ele ficava. Era a posição que menos comprometia os sistemas respiratório e cardíaco. Essa fase implicou em uma nova mudança na minha rotina, pois eu precisaria passar mais vezes em casa, principalmente para dar água para ele. Foi muito complicado. Se por um lado ele não se arrastava mais pela casa toda derrubando tudo, por outro eu precisava ficar mais em casa principalmente por causa da água.

A veterinária deu poucas esperanças de ele voltar a sentar. Disse que mesmo que isso acontecesse ele ficaria menos bagunceiro. Segundo ela, a fase de se enganchar nos móveis e rasgar constantemente a fralda era uma espécie de “revolta”. Que agora ele já estaria se acostumando com a nova condição.

Música para relaxar


O comportamento do Anúbis oscilou muito nesses dias. Havia momentos em que ele parecia animado, esticando o pescoço quando eu abria a porta de casa, enquanto em outros ficava olhando para o nada sem se mexer.  Algumas noites ele ficava quietinho enquanto em outras eu o ouvia mexendo as patas dianteiras tentando ganhar impulso para levantar, mas sem sucesso.

Para diminuir o tédio, quando saía de casa, passei a deixar um CD tocando.  Ele ganhara da antiga passeadora um CD chamado “Relaxing Dog”, com músicas especialmente compostas para a audição canina misturadas com sons da natureza, e que prometia acalmar o animal. Anúbis parecia gostar.

Se por um lado ele se sujava bem menos e não fazia mais bagunça, eu precisava estar mais presente.  Preocupavam-me os dias em que eu teria de ir para São Paulo e passar muitas horas fora. Ele ficaria muito tempo só, principalmente sem tomar água. Mas a veterinária disse que seu eu garantisse duas boas doses de água por dia, uma pela manhã e outra à noite ele ficaria minimamente hidratado.

Foram dez dias nessa rotina. Ainda bem que em uma época que eu pude me ausentar apenas em períodos mais curtos. Mas nem sempre seria assim.  No final da primeira semana ele piorou um pouco. Para ficar em posição de esfinge precisava agora ser ancorado pelas almofadas. A antiga passeadora emprestou uma almofada em forma de “rolinho” que eu alinhava com a coluna dele para deixá-la o mais ereta possível, quando ele estava deitado.

Liguei para a veterinária e ela pediu para levá-lo no fim da semana seguinte. Não deu tempo de esperar, pois o estado de saúde dele piorou. No sábado, como ele estava amuado, decidi deixá-lo observando o movimento no condomínio. Deixei a porta da casa aberta e o coloquei deitado em um edredon em posição que ele pudesse ver bem a rua, já que moramos em uma casa estilo americano, sem muros, nem portões.

Cachorros e crianças


Deixava-o sempre com a cabeça em cima de uma almofada alta para facilitar a respiração e o virava de tempos em tempos. Nem a criançada brincando na rua, nem outros cachorros passeando pelo condomínio o animaram muito. As fezes e a urina também mudaram.  Fezes muito escuras, secas e duras como pedras. A urina voltou a ficar presa na bexiga como nos primeiros dias da doença dele, em janeiro. Mas, dessa vez, não foi necessária a sonda.  Na hora de trocar a fralda, eu comprimia a bexiga dele até esvaziar.

No domingo a situação piorou, pois ele passou a se automutilar, talvez por estresse, talvez por dor. O corpo já tinha escaras dos dois lados e a lambedura foi tão intensa que ultrapassou as camadas de pele deixando uma mancha em carne viva. Passei óleo de amêndoa nas lambeduras e um óleo especial nas escaras.

Duas semanas antes eu havia feito uma pequena cirurgia no rosto e estava usando um óleo especial para cicatrizar sem deixar marcas. Como o vidro era grande, resolvi dividir o remédio com Anúbis, passando esse mesmo óleo nas escaras na altura do fêmur.  Vi que não daria para esperar o prazo dado pela veterinária. Resolvi levá-lo novamente na manhã seguinte.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

“Acelera” Anúbis!


O blog do Anúbis fez mais sucesso do que eu esperava. Em dois meses ele teve mais acessos do que o meu em um ano e meio. Graças à grande quantidade de compartilhamentos pelo Face e à minha amiga Carolina Rubinato que divulgou um release sobre o blog em alguns veículos de comunicação, com o intuito de ajudar quem passa pela mesma situação. Só em uma comunidade sobre saúde animal foram 140 compartilhamentos.

Um grupo que vem acompanhando de perto e torcendo muito por ele é o Turismo 4 Patas. Um pessoal divertido que faz esportes de aventura levando seus cães junto. Eu mesma já fiz rafting com a Raposinha junto com eles. Anúbis, inclusive, ficou doente dois dias antes de fazer uma trilha pela Mata Atlântica com o grupo.

Anúbis e a madrinha Aglaé
E foi justamente a Aglaé, uma simpatizante do 4 Patas, quem fez toda a diferença na história do Anúbis. Ao ler as a aventuras dele no blog, ela me procurou oferecendo um vet car que havia sido de uma rotweiller de uma amiga dela e que já falecera.

Vet car é o melhor carrinho para cães que existe. Sua ergonomia permite que, além de andar apoiado, ele
faça alguns exercícios de fisioterapia. Não acreditei quando li a mensagem. Tive de ler pelo menos duas ou três vezes para crer que era verdade. Anúbis de vet car! Para ser perfeito tinha de servir e a Aglaé morar em uma distância razoável. Apesar de que eu pegaria esse carrinho nem se fosse do outro lado do País. Fizemos contato e não podia ser mais perfeito. Era só pegar a
estrada e em 20 minutos eu estava na casa dela em Alphaville , em Barueri, município próximo a Cotia, onde moro.

Banhinho tomado, fraldinha limpa, escova nos pelos e lá fomos nós até Alphaville.  Eu fiz questão de levá-lo para que Aglaé o conhecesse e visse que todas as histórias do blog correspondiam à realidade. Foi empatia a primeira vista. Lembrando que Anúbis é um pouco resistente no primeiro contato. Que nada. Permitiu até ganhar um beijinho na testa (confesso que nesse momento perdi o fôlego com medo de ele mordê-la no rosto).

Sob medida

E veio o carrinho. Absolutamente perfeito. Parecia feito para ele. O colocamos com todo cuidado acreditando que ele precisaria de um tempo para se adaptar. Que nada! Mal fechei a última correia ele saiu em disparada com o carrinho pela rua. Assim como aqui na Granja Viana (Cotia), em Alphaville as casas são praticamente todas dentro de condomínios e não costumam ter muros nem portões. Anúbis desceu a rua como se fosse morador de Alphaville  há anos. Entrou no jardim alheio sem cerimônia. Ele estava eufórico e parecia sorrir. Foi difícil conter as lágrimas de ver tanta vivacidade nele.  Com o carrinho, Anúbis começava a redescobrir o mundo, de um jeito diferente.

Para dar melhor sustentação à estrutura do carrinho – feita em alumínio especial muito leve e resistente – as rodas são grandes e ficam afastadas do corpo do cão. Com isso, Anúbis não tem muita noção da sua nova largura. “Enroscar” em plantas, pés de mesa e na porta se tornou comum.



Anúbis ficou empolgado com a novidade. Andou e correu tanto que dormiu a tarde toda. Nos dias subsequentes se arrastava até o carrinho e ficava sentado me olhado como quem diz: você não vai me levar para passear? Como as ruas da Granja são antigas estradas vicinais urbanizadas, calçadas aqui não são encontradas com muita facilidade e muitas das que existem são bem estreitas.

Diante disso seria, pelo menos nos primeiros tempos,   recomendável andar somente dentro do condomínio. Quando as crianças deixam, pois chegar a qualquer lugar com um cão de cadeira de rodas é chamar a atenção para muitas perguntas e conversas.

O carrinho só pode ser usado uma pequena parte do dia (uma veterinária recomendou, no máximo, três horas por dia para o Anúbis) Isso porque o cão – principalmente quando de porte maior – não consegue deitar usando o carrinho.  “Acelera” Anúbis! Vai que o mundo é seu!

terça-feira, 9 de abril de 2013

A escolha do carrinho


Definida a situação de que Anúbis não voltaria mais a andar, chegou o momento de providenciar uma cadeira de rodas canina para ele. Outra maratona. As fábricas não ficam em São Paulo. A mais perto que achei era a quase 400 km. Elas mandavam uma ficha para preencher com as medidas do cão e depois mandavam o carrinho pelo correio. Não ficou bom? Problema do dono que “não tirou as medidas” direito. Isso era bem claro na maioria dos sites.

Investimento alto – em média R$ 800 reais para amargar um produto sem troca caso não se ajustasse ao cachorro. É certo que todos eles vêm com alguns parafusos para apertar mais ou soltar um pouco dando certa flexibilidade de tamanho ao veículo, mas confesso que fiquei receosa. Continuei procurando até que achei duas opções: fazer um carrinho em casa ou contar com a boa vontade de uma veterinária mineira que criou um carrinho feito com canos de PVC, os quais ela só cobraria material e Sedex, pouco mais de 100 reais. Depois descobri que há outros trabalhos semelhantes mais perto.

Fiquei com medo das medidas não ficarem justas então optei por baixar dois projetos de carrinho pela
Há modelos sofisticados
internet e fazer em casa mesmo. Estudei os projetos, mas vi que seria complicado montar sozinha. Conversei então com um amigo que mora em Jarinu, cerca de 100 km de Cotia e que talvez pudesse me ajudar. Além de ser jeitoso, ele tem um filho especial que anda de cadeira de rodas e para quem ele já teve de adaptar diversos equipamentos.

Além da distância tínhamos um problema de agenda, pois o maior fluxo de trabalho dele é aos sábados e domingos enquanto durante a semana complicava para mim. Decidi então conversar com a veterinária de Minas Gerais e pedir para ela fazer o carrinho para ele. 

E outros bem mais simples
Eu e uma veterinária aqui de Cotia tiramos as medidas dele, mas as duas estavam muito inseguras, pois é difícil medir um animal parcialmente inerte. As patas de trás estavam moles. Qual seria o comprimento certo dessas patas se ele ficasse em pé, entre outras dúvidas. Mandei fazer o carrinho, mas como eu temia, as medidas não bateram. 

Foi um pouco frustrante na hora em que fui experimentar, mas entre os modelos oferecidos eu escolhi o que
foi melhor dentro das minhas possibildades. Isso porque como o carrinho é feito com canos de PVC, se alguma parte não ficou adequada dá para refazer em casa mesmo, o que precisaria ser feito com o carrinho do Anúbis, uma adequação na altura. Outra jogada inteligente dessa veterinária mineira é que ela manda as peças do carrinho apenas encaixadas, então se precisar fazer algum ajuste fica fácil, pois você cola o carrinho somente quando ele já está ok.

A veterinária Renata Cobo faz
carrinhos a preço de custo
Um rapaz que trabalha com cães se ofereceu para fazer o ajuste no carrinho. Ele foi super atencioso, e teve boa vontade diante de outras pessoas que, mesmo podendo, me viraram as costas nesse período. Só que o Anúbis continuava sem mobilidade porque o ajuste feito novamente não deu certo. O que eu não sabia nessa época é que um milagre estava prestes a acontecer.

Projetos de carrinho para fazer em casa:


Vídeos que ensinam a fazer cadeirinhas:


Pessoas que fazem carrinhos a preço de custo:


Fábricas de carrinhos:

http://www.vetcar.com.br/

Páginas no Face sobre animais com problemas de locomoção ou que precisam de fisioterapia:


Dicas de uma outra proprietária de cão paraplégico:





terça-feira, 26 de março de 2013

Nova rotina, de novo



Com a mudança para dentro de casa e usando fraldas a rotina de cuidados também mudou. Conforme vamos pegando prática novos procedimentos e materiais surgem.  Para facilitar a vida, separei uma caixa de papelão em que coloquei todos os produtos de uso diário dele. Assim era só pegar a caixa em cima da estante hora de fazer a higiene.

Para que ele ficasse mais confortável e mais limpo dentro de casa, passei a fazer mais um ritual matinal diário: aquecer água e colocar em um pequeno balde com vinagre. Comprei algumas toalhinhas de mão em uma loja popular. Passei a molhar essas toalhinhas na mistura de água morna e vinagre e esfregá-las levemente no corpo dele da cintura para baixo retirando assim qualquer resto de urina que poderia ter ficado na barriga, nas pernas ou impregnada nos pelos (veja o passo a passo). Panos cirúrgicos ou fraldas de pano também são excelentes.
Depois secar com a toalha
e passar lencinhos umedecidos.
Finalizar com óleo de amêndoas

Depois dessa higienização primária, secava com uma toalha para depois passar os lencinhos umedecidos e, em seguida, óleo de amêndoas para 
Lavar com água morna, vinagre
usando pano absorvente
hidratar a pele, agora mais frágil com pelos tosados e quase sempre coberta pelo plástico da fralda.  E, todos os dias, uma limpeza no chão da área cercada usando  água e desinfetante, já que a fralda recolhe apenas urina. Os banhos que eram eventuais passaram a ser quinzenais. Descobri uma pet shop móvel em que a van toda equipada vem dar banho no cão em casa. Um sofrimento a menos com o transporte.

Kit passeio


Para sair de casa com ele também aprendi a montar um kit. Em uma sacolinha de tecido coloco um par de luvas, uma fralda, lencinhos umedecidos em embalagem de bolso, vidro pequeno de óleo de amêndoas, tapetinho higiênico e a focinheira, pois sem ela é impossível trocar as fraldas. A manipulação da coluna ainda traz dor – mesmo com todos os remédios – somada a certa dose de mau-humor, já que Anúbis nunca foi um cachorro dado a muitos toques e abraços. Ele quem sempre definiu quando quer brincar ou quer carinho.



A volta das fraldas caninas

Foram algumas semanas assim, ate que notei que ele gritava mais do que o normal na hora de trocar as
Tudo organizado em uma caixa
fraldas, olhei para a barriga dele e havia alguns nódulos que pareciam pequenas couves-flor, além de uns vergões vermelhos: reação à fralda geriátrica. Por ser muito grande ela cobria uma área muito sensível de pele e as extremidades roçavam nas dobras das patas causando irritação e até alguns cortes.

Solução: tratamento por algumas semanas com pomada cicatrizante e a volta às fraldas caninas 24h por dia. A economia inicial saiu cara. Como as fraldas caninas têm menor prazo de durabilidade que as humanas, eu tento me programar para passar em casa no meio da
Guardada em local de fácil acesso
tarde para fazer a troca. Isso porque quando a fralda fica “cheia”, ele arranca com a boca, fazendo uma bagunça danada no espaço em que está. Como nem sempre isso é possível, sei que há noites em que a limpeza do chão terá de ser mais caprichada.

Falando em orçamento, é interessante notar que em um caso desses ficamos muito focados no que
precisamos comprar a mais, mas dificilmente notamos o crescimento dos gastos do dia a dia. Água e luz por exemplo. Com Anúbis nessa situação, os panos utilizados com ele, os cobertores e até os panos de chão da limpeza diária ficavam mais sujos precisando ser lavados na máquina com mais frequência e às vezes até com água aquecida. A faxineira, que costumava vir a cada quinze dias se tornou necessária todas as semanas, entre outros pequenos gastos e que fazem diferença no fim do mês como a quantidade de sacos de lixo. Por sinal um item que me dói é a quantidade de lixo gerada com tanto material descartável: luvas, fraldas etc. Ainda não encontrei uma solução intermediária que me permita gerar menos lixo sem comprometer ainda mais a minha agenda.

Banho e tosa móvel
Horários também ficaram mais complicados. Levei quase dois meses para voltar a correr pela manhã. Às vezes é difícil, mas eu passo pela sala de olhos meio fechados e dizendo para mim mesma: Anúbis você vai ter de esperar mais um pouquinho porque agora vou dedicar um tempinho para mim.

domingo, 17 de março de 2013

Mudança para dentro


O lado “bom” de ter o diagnóstico definido foi o de conseguir saber que rumo seguir. Como eu gosto de ter as coisas organizadas, fazer tudo planejado e com parâmetros, saber definitivamente que ele não andaria mais me ajudou a nortear a nova rotina. Enquanto a dúvida pairava, além da angustia, do abalo emocional, havia a incerteza da vida, de como as coisas iam seguir.

Agora eu sabia que: ele precisaria de um carrinho para se locomover, o quintal não era mais uma opção de vida, o prazo entre os banhos diminuiria e ele precisaria emagrecer. Justo ele, o comilão da casa. Chamei novamente a minha amiga que chegou cheia de ideias e apetrechos.

Fato: precisávamos mudá-lo para dentro de casa. Depois percebi como a vida ficou muito mais fácil com ele dentro, mas no começo foi complicado. Eu tinha receio de ele se machucar com tantos móveis – confirmado depois – e nessa hora alguns fatores emocionais pesaram. Durante a infância e a juventude eu vivi em uma casa muito “bagunçada”, cheia de improvisos e quebra-galhos e o meu sonho sempre fora ter uma casa “bonitinha”, daquelas de revista. Isso não tem nada a ver com mania de organização e limpeza – pelo contrário, quando eu “bagunço” eu “bagunço” mesmo a casa – mas que tivesse certa ordem interna e externa. Passara por algumas casas antes, mas essa foi a que eu escolhi, do meu jeito, em um lugar que eu “namorei” mais de 10 anos antes de conseguir mudar. E mais: eu tinha planos de atender alguns clientes em casa. Como fazer uma sessão de coaching ou de consultoria em um ambiente adaptado e que, certamente, a situação do cão tiraria a atenção do cliente? Outra alteração definitiva na rotina: cachorro dentro, cliente fora.

Minha amiga chegou com um pedaço de mais ou menos dois metros quadrados de forração emborrachada com estampa imitando madeira. Colocamos em um canto da sala, como se fosse um tapete entre o sofá e a TV, bem em frente à porta de vidro que dá para o quintal. Como o chão da casa é de madeira, até que “combinou”.  Colocamos um colchonete com capa plástica, coberto por um tapetinho higiênico.

Tapete higiênico lavável
Dica: como no caso do Anúbis o tapetinho higiênico funcionava mais como uma “garantia” em caso de vazamento da fralda, optei por um modelo reutilizável. Sim, há tapetinhos reutilizáveis no mercado. Custam menos da metade de um pacote com 30 tapetinhos descartáveis e, segundo o fabricante, duram de 3 a 4 meses. Não sei se usaria em casos de o cachorro usar o tapetinho diretamente para fazer xixi, mas como acessório adicional, achei ótimo. Comprei dois porque, apesar de úteis, práticos e de fácil limpeza, eles demoram a secar. Troco a cada três ou quatro dias. A lavagem é simples. É só deixar algumas horas de molho em um balde com água, sem sabão ou outros produtos químicos. Sai tudo. Depois é só colocar para secar, o que demora um ou dois dias, pois o tapetinho tem uma base plástica onde acumula a água da lavagem e que precisa escorrer toda durante a secagem. Mesmo assim, mantenho um pequeno estoque de tapetinhos descartáveis, inclusive para o “kit passeio” que terá um post específico.

Cantinho do Anúbis

Devidamente acomodado dentro de casa, Anúbis agora provocava “inveja” na Raposinha e no Felipe Wanderley. O “cantinho do Anúbis” fica bem perto da porta de correr em vidro, que liga a sala ao quintal. Porta essa que eu deixava parte do dia aberta, apenas com um “portãozinho de cachorro”, separando-os.  Com isso ele conseguia olhar os passarinhos e o movimento dos dois outros cães. Inclusive podia “rosnar” para seu desafeto, Felipe Wanderley, quando esse corria no quintal.  Felipe é três anos mais velho que Anúbis. Os dois se davam bem até a chegada da Raposinha. Mesmo com todos castrados, a presença de uma fêmea – que já está conosco há oito anos – gerou animosidades. É o velho e conhecido triângulo amoroso.

Quem menos gostou da historia foi a Raposinha. De porte pequeno, ela sempre teve acesso mais livre à casa que os dois. Agora ficaria a maior parte do tempo no quintal. Inconformada, ela tentava pular o portãozinho do quintal para dentro (o poder de impulsão da Raposinha é impressionante). Nas vezes que teve sucesso quase caiu em cima do Anúbis.

Eu deixava essa porta aberta até quando saía por pouco tempo, mas mudei de ideia no dia em que ele resolveu ir até o quintal. Como ele não sente mais a parte traseira, não percebeu que “enganchou” as patas nos vãos do portão e acabou arrastando-o quintal adentro. Cheguei em casa e Anúbis estava no meio do quintal, preso no portãozinho.

Para evitar que ele se machucasse, ao sair de casa eu “cercava” o cantinho dele. Colocava uma madeira entre a mesa da TV e o sofá, calçada por um banco. Até que ele percebeu que conseguia empurrar a barreira e andar pela sala toda.

Precisei novamente mexer na rotina quando cheguei um dia em casa e a sala parecia que havia passado por um “tsunami”.  Nas suas “andanças”, ele prendeu perna na mesa da sala de jantar. Como Anúbis é muito forte, ele arrastou a mesa até o centro da sala, derrubando as seis cadeiras. Não sei como a cobertura de vidro ficou intacta.

Diante do “quase acidente” optei por montar uma segunda estrutura para ele na cozinha. Comprei alguns metros de passadeira de borracha e coloquei no chão. Quando saio de casa, coloco o colchão dele sobre essa forração e o deixo na cozinha. Lá os móveis são chumbados nas paredes e não tem pés. O espaço é pequeno, mas pelo menos não há risco de acidentes.

O diagnóstico definitivo


Com a acupuntura em andamento começou a nova fase de fisioterapia. Exercícios bem simples foram incluídos na rotina diária dele, além daquele da toalha, já descrito em post anterior:

Teste de sensibilidade: um dos principais pontos de sensibilidade neurológica do cão está entre os dedos das patas. Aquela pele que liga os dedos como se fosse um pé de pato é altamente sensível. Então, todos os dias eu precisaria apertar aquela pele com força. Sem dó, beliscando, colocando a unha para ver se ele encolhia a pata. Não é fácil porque dá pena de doer, mas a proposta é justamente essa provocar dor para que ele tenha reação.

Colher de pau: para que o cérebro não “esqueça” da parte do corpo sem movimento, há um exercício simples de estimulação que dá para fazer até vendo TV: pegar uma colher de pau e dar batidinhas em toda a extensão das patas sem movimento, repetidas vezes por cerca de dois minutos em cada pata.

ativação neural com colher de pau
Abraço nas pernas: outro exercício é tentar “forçar” a sustentação colocando o cão em pé, mas abraçando as patas traseiras esticadas. Ao deixá-lo em pé eu precisava segurar os “joelhos” traseiros dele esticados para “provocar” sustentação.

Nas primeiras sessões de acupuntura havia esperança. Mas com o passar do tempo, a musculatura traseira perdera a consistência e os testes de sensibilidade não davam resultado. Não haveria mais o que fazer. Havia ali dois caminhos a seguir: se desesperar, amaldiçoar e se achar vítima do mundo ou incorporar a novidade e refazer a rotina a partir daí.

De uma coisa eu tinha certeza: eu ia dar a melhor qualidade de vida possível para ele, mas não seria sua escrava. Não iria transformar a minha vida toda em um sacerdócio a ele para depois ficar me achando vítima do mundo. Certamente não foi fácil receber a notícia. Tanto por ele, um cachorro sempre tão ativo, que adorava um espaço amplo para correr como se o mundo não tivesse fronteiras, quanto para mim que teria de colocar mais limitações na minha vida.

A rotina da casa iria mudar, o layout iria mudar, o orçamento iria mudar definitivamente e as minhas escolhas precisariam mudar. Viajar a trabalho não seria mais tão fácil. Até então, quando eram apenas alguns dias, eu pedia para a passeadora trocar comida e água e limpar o quintal. Hotel era apenas no caso de viagens mais longas. A partir de agora tudo seria diferente. Tanto pela troca das fraldas quanto porque ele precisaria de mais assistência. Acordar atrasada, colocar uma roupa rapidinho e sair de casa também se tornou impossível. Haveria a rotina matinal de cuidados.

Correr pela manhã também ficou complicado, eu teria de ou acordar mais cedo do que o habitual 5h30 ou teria de começar a rotina de trabalho mais tarde. Creio que a readequação da atividade física tenha sido o mais difícil para mim, pois moro em um local em que as ruas são estreitas, poucas delas têm calçadas, ainda há muitos terrenos baldios e a iluminação pública é boa em apenas parte das vias. Além dos caminhões que desviam pelas vicinais para não pagar pedágio e para escapar do trânsito das rodovias e do Rodoanel. Correr à noite? Ou trocar a linda paisagem natural e os eventuais encontros com gambás, macaquinhos e pássaros diversos pela tediosa esteira?

Uma questão de “ente-eixos”

Maca-cão
Havia duas opções: reclamar ou resolver. Preferi a segunda. Acionei novamente a minha amiga que veio de imediato. Logo de cara com uma surpresa criativa: ela trouxe um acessório de transporte que ganhara de uma clínica veterinária quando sua doberman ficou tetraplégica: uma estrutura de lona reforçada parecendo uma  maca hospitalar, mas com quatro furos para o encaixe das patas.  A criação fora do dono de um rotweiller que também perdera o movimento traseiro e que, depois de o cão falecido, doara o “equipamento” para a clínica.  Quando olhei o Anúbis dentro , apelidei de imediato a “engenhoca” de “maca-cão”.  Dentro dela ele faria automaticamente exercícios de fisioterapia e poderia ser transportado sem incômodos.

Conclusão 1 (sem embasamento científico): rots, dobermans e pastores mestiços têm “entre-eixos” semelhantes porque o Anúbis se encaixou perfeitamente na estrutura.

Conclusão 2: gente que mora sozinha não pode ter cachorro grande. O “maca-cão” precisava de duas pessoas para carregar. Ou seja, não foi dessa vez que a vida dele ficou mais fácil.

Transporte continuava sendo o maior problema. Já que o uso do “maca-cão” implicaria em eu ter visita em casa, levá-lo de um lado para o outro ainda era dolorido. Para ele e para mim. Uma maneira que parecia fácil de levá-lo – ele não demonstrava sentir dor e as minhas costas agradeciam - , era pegá-lo pendurado pelas quatro patas, como se transporta um animal morto. Ele até parecia se divertir. Até o dia em que eu peguei de mau jeito e destronquei uma patinha dianteira dele.